Tocar a liberdade com a ponta da língua: eis a tua pequena utopia, Sofia Freire. Parece que você põe tua arte a serviço de tocar em nós esta vontade e este impulso de uma liberdade que seja mais vivível mais que sonhada, encorporada mais do que imaterial. Neste show, aliás magistral, no Festival de Inverno de Garanhuns (FIG), você encerrou o espetáculo falando sobre esta canção-oração, sobre esta música-mantra, que eu finalmente, neste dia, pude sentir mais a fundo, compreender no que ela tem de ousado e de sábio. Grudei meus olhos e ouvidos e câmera em ti, ali bem pertinho, tentando entender o sentido profundo do teu canto, e agora num esqueço mais disto que levei pra mim: “Não haverá mais dia que se passe / Sem que eu pense / Sem que eu pulse / De vontade / De tocar a liberdade / Com a ponta da minha língua. / Sentir o gosto / Do tempo gasto / Com quem eu gosto / E com o que não míngua.”

Sofia, poetisa, gostei do poema onde você evoca e convoca o que não é mais a Liberdade com L maiúsculo, entidade abstrata celebrada por filósofos logocêntricos, um dos 3 valores cardinais da Revolução Francesa, mas uma liberdade com minúscula, mas não desimportante; saboreável talvez com o que temos em nossas bocas, com nossas línguas embebidas de saliva, liberdade sensível, liberdade beijável, liberdade cantável. “Ponta da Língua”, canção que dá nome ao álbum homônimo da cantora e compositora pernambucana, é uma evidência de que Sofia Freire é uma força expressiva da música alternativa nordestina contemporânea a quem vale a pena dar atenção.
Não é uma música frevosa e animada como a de Flaira Ferro, mas evoca um outro Recife, mais alternativo, mais tecnopop, que ela explora com muita graciosidade, a ponto de merecer o apelido Alternadiva. Parece-me que ela trafega por caminhos que hoje, na música brasileira, vem sido trilhados pela Luiza Lian, pela Nath Rodrigues, pela Sara Não Tem Nome, pela Juliana Linhares. Tem poesia orgânica visceral aqui, mas acompanhada por parafernálias técnicas, beats eletrônicos, pads de materiais pré-gravados, algo numa vibe meio indie-trance. No canal d’A Casa de Vidro, estreamos este clipe, este plano sequência, que encerrou o show de Sofia no F.I.G. Saboreie: https://youtu.be/7T_pAnKoSIc.



Ponta da Língua (Sofia Freire)
Não haverá mais dia
Que se passe
Sem que eu pense
Sem que eu pulse
De vontade
De tocar a liberdade
Com a ponta da minha língua
Sentir o gosto
Do tempo gasto
Com quem eu gosto
E com o que não míngua
Não haverá mais peito
Que me prenda a seu pranto
Desacato ou desencanto
Que me afaste a festa
Abro frestas pro futuro
Danço com o inseguro
Não haverá escuro
Que nos incomode tanto
Frases de efeito
Não me afetam
Afetos sem defeitos
Não me definem
Se não é inteiro
Não me interessa
Se não me eleva
Não é relevante
Se um temor não revela
Não levo adiante
Com os riscos que eu corro
E os traços da memória
Desenho a história
Que ninguém te conta:
A coragem amedronta
Aponta o que está morto
E confronta o conforto
Que confunde ouro e glória
Frases de efeito
Não me afetam
Afetos sem defeitos
Não me definem
Se não é inteiro
Não me interessa
Se não me eleva
Não é relevante
Se um temor não revela
Não levo adiante
Frases de efeito
Não me afetam
Afetos sem defeitos
Não me definem
Se não é inteiro
Não me interessa
Se não me eleva
Não é relevante
Se um temor não revela
Não levo adiante
REVISTA CONTINENTE: Ponta da Língua foi escolhido como um dos 25 melhores discos de 2024 pela APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte). Na obra, a artista explora uma mistura envolvente de dark pop e sons experimentais, com temas que abordam crise existencial, regeneração e amadurecimento. Com nove faixas, o disco é inteiramente composto, produzido e gravado pela própria artista, revelando sua busca por uma expressão musical e pessoal profunda. A artista, que ganhou notoriedade na cena musical brasileira desde o lançamento de seu primeiro álbum, Garimpo, em 2015, tem se destacado por sua sensibilidade e experimentação sonora. (SAIBA MAIS AQUI E AQUI)
MÚSICA INSTANTÂNEA – Crítica de Cleber Facchi
DISCOGRAFIA NA HOMINIS CANIDAE
Um pouquinho mais de Sofia Freire, ao vivo e a cores em sua Pernambuco natal: “Matrioska” foi lançada em 2017 em seu álbum “Romã” e foi composta pela grande escritora brasileira, nascida no Recife, Micheliny Verunschk. https://youtu.be/KJ-7nOSU7vg?si=v92M77MRLeQVgta- #Música #MPBContemporânea #TecnoPop #Lirismo #Poesia
Dentro de mim mora
A filha da minha filha
E eu moro dentro de uma mãe
Uma mãe muito antiga
Dentro de mim mora a filha
A filha que me habita
A filha que me religa
Dá um nó
E me umbilica
Dentro de mim mora a mãe
A mãe que me repete
A mãe que coabita em outra
Que em mim respira
Dentro de mim mora
A mãe
Dentro de mim mora
A filha
Dentro de mim mora
A outra
Que se expande e contrai
E que parindo a si mesma
Em milhares se multiplica
Composição de Micheliny Verunschk, escritora, crítica literária, compositora e historiadora brasileira. Nascida no Recife em 10 de julho de 1972, foi finalista do Prêmio Portugal Telecom de Literatura e vencedora do Prêmio São Paulo de Literatura 2015 e do Prêmio Jabuti 2022.
Big Bang (Sofia Freire) Me disseram Que o universo se expande Continuamente Rumo ao eterno Desde a grande explosão Falam muito Sobre a beleza das equações E buracos negros E da física dos pêndulos Sinto meu peito e ouvidos Se encherem de tempo, Planetas e ciência E minhas pupilas se expandirem Como o universo: Continuamente Pra que não falte espaço Enquanto os meus olhos Se encherem de mistério Enquanto os meus olhos Se encherem de mistério Enquanto as minhas veias pulsarem Sou só um diminuto grito Neste vasto infinito De vácuo e poeira De terra plena Vida plana Pluma e passageira.
Publicado em: 07/08/25
De autoria: Eduardo Carli de Moraes educarlidemoraes
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